• Sâmia Simurro

Stress e Sensibilidade Feminina no Ambiente de Trabalho

AUTORA: Sâmia Aguiar B. Simurro  



A inserção feminina no ambiente de trabalho trouxe inúmeros desafios. Todas as mudanças na economia mundial como a globalização, tecnologia, competitividade desenfreada e exigências cada vez maiores de qualidade, já provocam grande aumento na carga horária de trabalho dos executivos em geral. Se nos dias de hoje o volume de trabalho aumentou assustadoramente, e, não raramente, se mantém trabalhando acima de 12 horas por dia, no caso da mulher o problema se agrava enormemente. Quando a participação na disputa pelo mercado de trabalho vem motivada, não só pelo legítimo desejo de realização profissional, mas, também, pela necessidade de contribuir financeiramente para a manutenção da família, ela se encontra muito mais ameaçada e vulnerável diante das imensas dificuldades.


Enquanto que a mulher sempre foi vista como sensível, frágil, intuitiva, sentimental, compreensiva, conciliadora, romântica, sonhadora e se atribui a ela o mérito da união, tolerância e justiça, ao homem é dada à imagem de rapidez, praticidade, atividade, pragmatismo, agressividade e força. Se por um lado a educação da mulher era fortemente orientada para a família, o homem sempre foi estimulado a vencer desafios e a tentar superar seus limites individuais. Quando se transporta isso para o mundo das grandes empresas, embora no discurso exista a valorização de qualidades como colaboração, empatia, muito ligada a características femininas, no momento da contratação ou da promoção, em geral vence figuras heróicas, que sempre são associadas ao sexo masculino. A realidade é que as características masculinas são frequentemente, competências bastante apreciadas e perseguidas nas organizações. Os assertivos e competitivos são muito estimulados e reconhecidos. Esse fato pode levar alguns a errada conclusão machista de que a mulher foi feita para ficar em casa e não para trabalhar nas empresas.


Não é nada fácil ser uma mulher moderna. Como obter sucesso profissional, ver os filhos bem encaminhados, cuidar da casa e ainda ter tempo para cuidar da aparência e se manter atraente? Qual o fio condutor para alcançar e manter o equilíbrio sem perder a essência que sempre lhe foram peculiar? O que fazer com a sensibilidade feminina? Conciliar esta nova realidade com o antigo modelo que persiste e que, segundo algumas pesquisas, são ainda o sonho e a preocupação da maioria delas, é o grande desafio. 


O universo feminino com certeza tem sido drasticamente modificado ao longo dos anos, tanto no trabalho quanto na família. Diante de tantas demandas que ameaçam, o stress tem se agravado e vem aparecendo como um vilão implacável para a saúde e a qualidade de vida da mulher. A impressão que se tem é que, “características femininas” não “combinam” com o mercado dos negócios. O resultado é a constatação feita pelos profissionais de saúde de que o stress na mulher está mais intenso e grave do que no homem. Em uma pesquisa da Pontifícia Universidade Católica (PUC) publicada recentemente, 91% das mulheres se declararam stressadas. Isso representa muito mais do que as estatísticas masculinas. O que se observa é que, se o ambiente favorece longas jornadas de trabalho, diminuindo assim as horas de sono, atividade física, lazer e vida familiar tanto para o homem como para a mulher, no segundo caso, a demanda pessoal e social de estar bonita, em dia com os afazeres domésticos, obriga a mulher a esticar ainda mais as horas que ela se mantém em atividade. A pressão por resultados no trabalho, por exemplo, é, no caso do “sexo frágil”, igual ou maior do que a que existe no homem. A mulher, mais que o homem, continua tendo que provar competência para ter credibilidade e respeito na função que exerce. Isso ocorre, a despeito do fato de que ela tem se sobressaído heroicamente em todas as áreas. Tudo isso junto, é um excelente caminho para o stress, depressão e outros problemas de saúde.


Não se duvida que, no século passado, a mulher alcançou o seu maior avanço em toda a história da humanidade no que diz respeito ao seu espaço dentro do ambiente de trabalho. Nos últimos dez anos as conquistas femininas no mundo corporativo foram consolidadas, e mais de 26% das famílias brasileiras já são chefiadas por elas, segundo pesquisa do IBGE. O número de mulheres que são responsáveis financeiramente pelas suas famílias aumenta significativamente.  


Porém, embora muita coisa tenha mudado e a lista das conquistas femininas seja bastante grande, existem ainda muitas questões não solucionadas no ambiente de trabalho: apesar de serem já mais de 40% da população ativa do país, as mulheres ainda ganham apenas 67% do salário dos homens que exercem a mesma função, são poucas as que atingem cargos gerenciais (24%), e na hora da promoção a funções de maior poder e prestígio, são sempre preteridas em benefício dos homens (dados IBGE). As dificuldades de emprego, a informalidade na contratação e a instabilidade do trabalho parecem afetar mais o sexo feminino, embora o homem também esteja sujeito a esses problemas; soma-se a isso, o fato de que a dupla jornada de trabalho a que a mulher está submetida, ainda não está equacionada de maneira justa.


O problema decorrente de tanta desigualdade é que está cada vez mais difícil enfrentar essa realidade. Se aproximar do modelo masculino de atuação no meio profissional, surge como uma tentativa da mulher de provar que também tem condições de assumir cargos de decisão e poder. No trabalho de convencimento da sua competência sua sensibilidade fica guardada a sete chaves. O fato é que o padrão feminino de comportamento é sempre esperado, mas não necessariamente recompensado, ou pelo menos reconhecido, como sendo parte da estratégia gerencial. O que ocorre é que quando a mulher num cargo de comando envia notas de agradecimento e incentivo para a equipe, ou informa sobre assuntos tratados em uma reunião que um funcionário não participou isto é interpretado como um desejo feminino de humanizar as relações de trabalho, e não como ações estratégicas para um melhor desenvolvimento de algum projeto. Quando ela é compreensiva e atenciosa, é visto como um comportamento natural e não como estilo de gestão destinado a manter a motivação do grupo. Os traços femininos como confiabilidade, apoio, integração, empatia e compartilhamento tanto de poder como de informação, ocupam um segundo plano, quando diante da autoconfiança, competitividade, decisão e objetividade masculina. Neste caminho, a mulher se perde e se afasta justamente do seu diferencial, tão necessário para as relações de trabalho atual.


A mulher está perdendo justamente o que o consultor americano Tom Peters coloca como vantagem competitiva. Melhorar e humanizar o ambiente de trabalho para que os profissionais sintam-se mais saudáveis, respeitados, motivados e produtivos tem sido a preocupação de algumas grandes empresas, através dos programas de qualidade de vida que começam a ser desenvolvidos. Promover isso começa a ser uma decisão estratégica de melhoria da motivação, criatividade e produtividade dos funcionários. Hoje, uma empresa que quer reter seus melhores talentos e aumentar o lucro, precisa investir no bem estar de seus colaboradores.


A conclusão que se faz deste processo é que a mulher, assim como o homem, tem muito como contribuir com a organização, através do seu estilo próprio de gestão. Em sua prática relacional, ela não precisa direcionar seus esforços para se igualar ao homem.  A busca pelo equilíbrio dessas diferentes competências na organização é o segredo para se alcançar a um estilo de gerenciamento que atenda as novas demandas do mercado. É chegada à hora de, no estilo feminino, “discutir a relação” empresa, homem, mulher e trabalho. Não existe aqui uma solução fácil. É o momento de sensibilizar o mundo corporativo para que os processos de trabalho se contraponham de uma maneira mais justa, ou correr o risco caminhar para o caos generalizado.


A coragem de mudar aparece quando se observa que a corrida desenfreada por resultados, precisa dar espaço para o bom senso, o respeito, e a proteção do espaço de cada um. O modelo masculino de gerenciamento é discutido por Joyce Fletcher, autora do livro Disappearing Acts – Gender, Power and Relational Practice at Work. O fato é que existem interesses diferentes entre o homem e a mulher. A necessidade é que no futuro, as decisões corporativas surjam de ações coordenadas onde participem tanto executivos, como executivas. Não se discute que a diferença entre os sexos são complementares e não excludentes. Enquanto um é mais focado a uma ação específica, o outro opera mais com múltiplas escolhas. Quando se agrega essas diferenças, acrescenta-se ao produto além da iniciativa, objetividade e realização atribuídas aos homens, somando-se outros valores igualmente fundamentais como a força da sensibilidade, qualidade na comunicação e integração, próprias da mulher.


Não é apenas responsabilidade da mulher a solução para esse problema. Há muito que realizar para que a mulher consiga equilibrar sua sensibilidade, seu trabalho e finalmente poder estar inteira para trabalhar e produzir. O importante é que neste novo edifício do relacionamento corporativo que temos que construir, para que ele se torne seguro e sólido, os tijolos precisam ser compostos de inclusão, respeito e proteção do espaço de cada um. A sugestão é começar pelo tijolo da igualdade de oportunidades para todos.


SÂMIA AGUIAR BRANDÃO SIMURRO

Lattes: http://lattes.cnpq.br/2611850276095521

Mestre em Psicologia USP.

Sócia Diretora da Empresa SeR – Psicologia.


#dicasdeblog #WixBlog

0 visualização

Psicologia & Coaching

Telefone - SER
Email - SER
Facebook - SER

+55 11 3284-5337 

ser@ser-psi.com.br

 

Av. Brigadeiro Luís Antônio,2503, cj 14, Jardim Paulista, São Paulo - SP

Telefone - Rachel
Email - Rachel
Linkedin - Rachel

+55 11 97206-4478

rachel@ser-psi.com.br

Rachel Skarbnik

Telefone - Sâmia
Email - Sâmia
Linkedin - Sâmia

+55 11 97206-4476

samia@ser-psi.com.br

Sâmia Simurro

© 2019 por SER-PSI